Meu trabalho é minha ferramenta política, é a forma que venho encontrado de lutar nesta selva, uma espécie de bússola que tenta me manter com o olhar em um norte belo e cheiroso, calmo como um final de tarde de verão com as cadeiras na calçada de casa, em uma rua tranquila, simples

Busco utilizar o campo de minhas obras para tratar de assuntos que envolvam o subúrbio do Rio de Janeiro e as diversas questões que se vive nesse lado da cidade, partindo da abstração como essa forma política que não é tão assimilada pela massa, acredito que a própria decisão, antes mesmo de existir a primeira obra, já era em si a principal movimentação política, a reflexão que sustenta todas as outras, pois também acredito que não existiria uma forma melhor de tratar de minhas narrativas que não sejam de uma forma abstrata.

Tenho tratado principalmente das questões intelectuais e educacionais que atravessam meu território, ao que tento costurar com o universo da arte e a forma que isso se estabeleceu na cidade, não só em um lugar de crítica mas também de reflexão sobre futuros possíveis. O suporte imagético que a cidade me proporciona é onde busco referências para criação de minhas obras, tendo muitos momentos o próprio material sendo retirado das ruas e utilizado nas obras. 

A construção de minha obra não é linear, eu tenho diversas dificuldades em conseguir enquadrar o meu corpo de trabalho (e meu próprio corpo) aos lugares da arte contemporânea, muito mesmo, porque tenho plena noção do quão distante é da realidade e do pensar que me constrói nesta posição de artista e acredito que enquanto eu perceber que existe um descaso com movimento culturais pretos e periféricos, cabe a mim me manter o mais próximo de minha realidade, custe o que custar, mas que minha narrativa e minha vida pessoal não se afastem de minhas raízes. 
 

Penso que a figuração não é capaz de dar conta da realidade do Rio de Janeiro, não em sua totalidade...não é possível retratar em imagens concretas a densidade e as infinitas camadas que constroem esse lugar. Assim como tenho afirmado que é extremamente necessário a presença de instituições de arte nas periferias e favelas do Rio de Janeiro para a diminuição da violência. A construção de um gueto consciente e fortalecido culturalmente deveria ser um dos principais nortes para nossa sociedade, e acredito na minha visão enquanto artista, que a arte é a principal ferramenta que nós temos para desenvolvermos esses espaços de educação e conhecimento, baseado na identificação e cuidado com a própria cultura já produzida pelo subúrbio carioca. 
 

Há dois anos atrás quando dei início a minha pesquisa (pode parecer pouco tempo, eu sei) o subúrbio ainda não era um assunto tão presente no universo da arte contemporânea, nós tínhamos Lucia Laguna que é minha principal referência artística e alguém que me influencia imageticamente e intelectualmente e Agrade Camíz já tinha o desenvolvimento de sua pesquisa. 

 

Desde julho de 2019, creio já ter abordado os mais diversos assuntos que envolvam a cultura suburbana e retratado pensamentos e sentimentos que são parte do povo. Ainda em 2019 aproximei minha pesquisa do samba, tomando por parte da intelectualidade popular contida nesse movimento, o que me leva ao lugar de como movimentos culturais pretos, são marginalizados e perseguidos...o choro, o samba, o funk e o rap, conhecimento das ruas, que consegue gerar impacto na vida.

 

Portanto acredito que dentro deste universo de ideais tenho me esforçado para construir essa alquimia que é particular mas também visa o coletivo, apresentar ao meu lugar uma outra perspectiva de se enxergar o mundo e poder ler uma obra para além do que possa se assemelhar a realidade...e a parede onde essa obra vai estar pendurada precisa ser no quintal de sua casa.